Amou daquela vez como se fosse a última…

De todos os Franciscos do mundo, ele é o meu preferido. Chico Buarque, como diria Toquinho, “é o jeito mais digno de fazer música brasileira”. E como uma boa apreciadora de MPB e bossa nova, eu acho curioso ler também sobre as músicas, como elas surgiram, de onde veio a inspiração (tanto para a melodia como para a letra) e também tentar imaginar quais são as histórias reais por trás das composições.

Uma das músicas que mais me chama atenção até hoje – não só das composições do Chico – é Construção (1971). Cada vez que se escuta, dá pra pensar em alguma interpretação diferente para as frases. O jogo de palavras que ele usou é, sem dúvidas, uma obra de arte!

Em três estrofes repetidas, com algumas palavras em ordens trocadas, ele fez com que a interpretação da letra se tornasse ambígua. Certa vez, ele afirmou que inicialmente tudo não passava de uma experiência formal e que a ideia de narrar os últimos instantes de vida de um operário veio quando a música tava quase pronta.

Na primeira estrofe é apresentada a história de uma forma lógica:

“Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

A segunda, é a mesma história levando em conta o estado psicológico do protagonista:

“Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Na última, o peão anônimo já tá alucinado e não sabe o que tá fazendo.

“Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Algum tempo depois, o compositor declarou que Construção não tinha nada a ver com o operariado, que a letra refletia, na verdade, uma experiência emocional. Mas a música ainda é referência para entender um período delicado da sociedade brasileira.

E você? Qual é a sua interpretação?

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2 Comments

  1. on 08/08/2013 #

    O trânsito, o público e o sábado são mais importantes do que a pessoa.

    Mas também, por que cargas d’água ele foi trabalhar no sábado?

    • on 09/08/2013 #

      Hahaha É verdade, né, Stella? Ninguém merece trabalhar no fim de semana, coitado :P